michael brown

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Only in Portugal

Mesmo depois de 12 anos a viver em Portugal, a sua burocracia e falta de bom senso ainda me consegue surpreender e deixar estupefacto. Tenho um Audi A3 onde decidi meter películas para escurecer todos os vidros traseiros (atrás do Pilar B para usar o termo técnico). Não, não sou um daqueles tipos de “tuning” que acha que ter os vidros do seu 106 todos pretos é “cool”, junto com um tubo de escape que parece um cano de esgoto. A verdade é que tenho um filho de 3 anos que anda no banco de trás do carro e não gosta de apanhar sol através dos vidros, para não falar dos riscos para a saúde dele de apanhar tanto sol.

Sim, há tudo uma panóplia de filtros com ventosas que existe para tentar resolver o problema, mas todas elas sofrem dos mesmos problemas:

A solução mais eficaz é ter todos os vidros traseiros escurecidos de maneira que absorvem a grande parte do calor e da luz do sol, e 99% dos raios UV. Não é por acaso que muitos carros novos hoje em dia trazem este tipo de vidro de série. Seja o vidro fumado de origem ou tratado por uma película o efeito é o mesmo, e no caso de películas de boa qualidade e bem aplicadas, é impossível de detectar a diferença.

Ora, se há muitos carros que já trazem os vidros traseiros escurecidos de origem, e se há ainda outros carros (p.ex. alguns comerciais) que nem sequer tem vidros atrás do pilar B, não devia haver qualquer problema em meter películas escuras nos vidros traseiros? Isso foi o que pensei.

Depois de algumas pesquisas na net encontrei a Valdemar Películas em Linda-a-Velha. Pedi um orçamento e eles tinham disponibilidade no próprio dia. Entreguei o carro e foi o buscar duas horas mais tarde com as películas já colocadas. Escolhi películas de 80% opacidade, sendo a opção que mais se aproxima aos vidros escuros que os fabricantes metem de origem. Fiquei satisfeitíssimo com o resultado. O trabalho dos senhores da Valdemar foi 5 estrelas. Paguei €125 que não achei nada caro. O meu filho também já deu o selo de aprovação aos novos vidros escuros, ficou mesmo muito contente.

Mas agora começou o pesadelo. As películas tem de ser legalizadas. Ah pois. Welcome to Portugal. Primeiro é preciso fazer uma Inspecção Categoria “B” do veículo. Uma Inspecção B é exactamente igual à qualquer outra Inspecção Periódica Obrigatória mas em vez de custar €28 custa €98. Para já não percebo porque raio é necessário re-inspeccionar o veículo todo só para ver se as películas estão bem colocadas e com a marca de homologação visível. E ainda por acima, esse trabalho de verificar as películas, que nem 30 segundos demorou, faz a inspecção custar mais €70 do que uma inspecção normal? Isso faz algum sentido?

Tudo bem. Engoli o sapo da inspecção. Mas agora, com o certificado da inspecção, é preciso ir a IMTT averbar o Documento Único Automóvel com a informação das películas. Ao contrário de alterações significativas e importantes como, por exemplo, mudar a cor do veículo ou admitir um novo tamanho de jantes e pneus, que custam ‘apenas’ €30, colocar películas é considerado uma alteração às características do veículo, equivalente a alterações à carroçaria ou transformações de comerciais em passageiros. Isso custa €150 para averbar no DUA. Que falta de bom senso!

Contas feitas a brincadeira dos vidros escuros custou-me €375, dos quais €250 foram para a burocracia da legalização. Legalização de uma coisa que não tem qualquer influencia na segurança nem na condução do carro.

Antes de 2007 era simplesmente ilegal de colocar películas nos vidros dos carros, mas isso não impediu que muito gente o fez, sem quaisquer controlos. Para remediar essa situação o governo criou o Decreto Lei Nº 392/2007 de 27 de Dezembro que torna legal as películas, com algumas restrições, e devidamente homologadas. Mas infelizmente, com o custo da legalização ser o dobro do custo das próprias películas, penso que nada vai mudar. A grande maioria vão por as películas que lhes apetece, sejam elas homologadas ou não, e arriscar a multa. Só os totós certinhos como eu vão fazer as coisas como deve de ser e pagar uma fortuna por isso.

É mais um exemplo do que em Portugal compensa não cumprir.